Uiratan Barroso[2]

Uma breve biografia sobre Leon Tolstói e Mahatma Gandhi

Leon Tolstói foi um escritor russo e profundo pensador social e moral, considerado um dos mais importantes autores da narrativa realista de todos os tempos. Nasceu em 09 de setembro de 1828, em Iasnaia-Poliana, na Rússia, ficando órfão de pai e mãe aos nove anos, sendo educado por diversos preceptores. Até 1851, levou uma juventude dividida em contradições, ora ocupando-se dos servos, ora entusiasmando-se com o luxo e as frivolidades, porém ansioso de ver sua vida tomar um rumo. Entre 1864 e 1877, se dedicou aos seus livros mais conhecidos mundialmente, “Guerra e Paz” (obra-prima que o tornou célebre) e “Ana Karenina”, romances históricos e psicológicos da literatura moderna, mas em 1878, entrou em uma grande crise religiosa abandonando a religião ortodoxa oficial para adotar uma espécie de cristianismo primitivo, evangélico, puramente moral e sem dogmas, publicando até 1891 livros de cunho espiritual e criando uma filosofia de resistência não violenta a todas as formas opressoras de poder. Antes de morrer na estação de Astapovo, murmura aos médicos que lhes assistiam: “Sabeis como morrem os camponeses? Há uma multidão deles desassistidos porque não se chamam Leon Tolstói. Por que os senhores não me deixam em paz e não vão cuidar deles?”. Leon Tolstói morre de pneumonia na estação ferroviária de Astapovo (hoje Leon Tolstói), na província de Riaz, Rússia, no dia 20 de novembro de 1910[3].

Mahatma Gandhi nasceu em Porbandar na Índia, no dia 2 de outubro de 1869 e foi um líder pacifista indiano e principal personalidade da independência da Índia, então colônia britânica, ganhando destaque na luta contra os ingleses por meio de seu projeto de não violência, que compôs seu pensamento e sua filosofia de vida. Recorreu a jejuns, marchas e à desobediência civil, onde estimulava o não pagamento dos impostos e o boicote aos produtos ingleses. Foi para Londres estudar Direito e, em 1891, voltou ao seu país para exercer a profissão. Quando decidiu ir para a África do Sul, em 1893, à época também colônia britânica, sentiu pessoalmente os efeitos da discriminação contra os hindus, iniciando a política de resistência passiva em protesto contra os maus tratos sofridos. Desde 1894, organizou várias formas de resistência pacífica, culminando em 1932 com sua greve de fome, que chamou a atenção do mundo inteiro. Após várias prisões, vê em 1947 os ingleses reconheceram a independência da Índia. Um ano após conquistar a independência, no dia 30 de janeiro de 1948, Gandhi foi assassinado a tiros por um hindu quando se encontrava em Nova Délhi, capital indiana[4].

A interessante comunicação por correspondências entre Tolstói e Gandhi[5]

Tolstói iniciou o movimento de resistência não violenta contra todo tipo de opressão, e Gandhi acabou se inspirando no escritor russo para fundar um movimento que intitulou Satyagraha, também baseado na resistência não violenta e na não cooperação pacífica. Antes da morte de Tolstói, Gandhi consegue se comunicar com ele através de carta, ocorrendo entre outubro de 1909 a novembro de 1910, e sendo interrompida justamente pela morte do líder pacifista russo. Na primeira carta, Gandhi fala do preconceito por cor e raça sofrido pelos indianos, mas que persistem firmemente na doutrina da não resistência à violência. São presos aos milhares por não se submeterem à legislação opressora dos colonizadores ingleses, e fazem isso sem o uso de violência e pelo bem de suas consciências: a resistência passiva pode ter mais sucesso onde a força bruta deve falhar. Roga ao seu interlocutor permissão para publicar escrito sobre resistência não violenta, caso seja de fato de sua autoria e, sem sua carta de resposta, Tolstói diz estar muito feliz por comunicar-se com Gandhi, abordando os temas reencarnação e imortalidade da alma. Por fim, autoriza o líder indiano a publicar seus escritos, desde que não se vise questões monetárias.

Ao responder, Gandhi diz que não conhece uma luta em que os participantes não obtenham, ao final, qualquer vantagem pessoal por ter sofrido grande aflição e provação por causa de um princípio. Continua pedindo ao seu interlocutor que o apoie no movimento contra a opressão inglesa, para que triunfe a religião, o amor e a verdade sobre a irreligião, o ódio, a falsidade e o partido da violência, pelo menos na Índia. Por fim, notícia que seu filho, também unido a ele na batalha, fora preso pela quarta vez, por seis meses, com trabalho forçado. Com a demora de Tolstói em responder, Gandhi escreve uma pequena carta, encaminhando alguns escritos, pedindo humildemente que Tolstói lesse e criticasse. Ao responder, Tolstói diz ter lido os escritos, achando de grande importância a questão tratada sobre a resistência pacífica, não apenas para os indianos, mas também para toda a humanidade, mas Tolstói, com a saúde já abalada, já se aproximava da morte.

Mas Gandhi ainda lhe enviaria uma última carta, falando da uma publicação que fez no jornal Indian Opinion[6], ao passo que Tolstói expressa seu contentamento sobre o jornal Indian Opinion, mesmo próximo de sua morte, dizendo de sua felicidade em ver o que Gandhi dizia daqueles que renunciavam a toda a resistência pela força, vivendo a lei do amor, não pervertida pelos sofistas. O amor, o esforço das almas dos homens em direção à unidade e o comportamento submisso que resulta dele, para Tolstói, representava a mais importante e, de fato, a única lei da vida, tão bem compreendida pelas crianças. Lembrava que a vida das nações cristãs apresentava uma contradição entre o que elas acreditavam e o princípio sobre o qual elas foram construídas, uma contradição entre o amor, que deve prescrever a lei da conduta e o emprego da força: “Cristo não apenas nos proibiu de matar, mas de fazer mal ao próximo. Socialismo, comunismo, anarquismo, Exércitos de Salvação, o crescimento do crime, a libertação do trabalho, o luxo cada vez mais absurdo dos ricos e a crescente miséria dos pobres, e o número assustadoramente crescente de suicídios são todos indicadores dessa contradição interior que deve e será resolvida unicamente através da lei do amor e a desconfiança total na força de qualquer tipo de violência”. Por fim, Tolstói afirma que os governos opressores sabem de que direção o maior perigo os ameaça e estão vigilantes, com olhar atento, não apenas para preservar seus interesses, mas para realmente lutar por sua própria existência.

Palavras de Gandhi após a morte de Tolstói[7]

            Em 26/11/1910, no jornal Indian Opinian, Gandhi disse: é impossível que a alma de Tolstói tenha morrido. Ele renunciou à sua riqueza e abandonou uma vida de conforto para abraçar a de um simples camponês, colocando em prática o que pregava, o que denunciou a sua maior virtude. Acreditava que todas as crenças consideravam a força da alma superior à força bruta, sendo o mal a negação da religião, que deveria ser a prática da compaixão. Para Tolstói, o satyagraha (filosofia da resistência não violenta) deveria ser ponderado por todos, a começar pelos governantes, apaixonados por sua força, que certamente não ficarão satisfeitos com tal proposta.

A Comunicação Não Violenta na ideia de resistência não violenta proposta por Gandhi[8]

            Mahatma Gandhi escreveu sobre a resistência não violenta entre os anos de 1920 e 1948. Muitos foram seus ensinamentos, a começar pelo que disse sobre o perdão, que considerava mais valoroso que o castigo. Para ele, a força da Índia não vinha da capacidade física, mas da renúncia à punição e de uma vontade indomável em perdoar seus opressores. A dignidade de um homem exigia obediência a uma lei superior – a força do espírito, marcada pelo autossacrifício, pela não violência e pelo sofrimento consciente. Só assim seria possível que um único indivíduo desafiasse todo o poder de um império injusto para salvar sua honra. Gandhi dizia que a deliberada rejeição a Deus nos tornava ateus para todos os fins práticos, acreditando, a longo prazo, que a força física protegeria a todos no final.

Ao invés de métodos secretos e diplomáticos, Gandhi defendia a Verdade, ao invés das armas, a não violência. Em meio a limitações bem definidas, inerentes ao ser humano, tinha certeza de que qualquer movimento ou política que se baseasse na violência e na negação de Deus, era nefasta. Não acreditava em atalhos violentos para o sucesso, mas no bem permanente que nunca pode ser o resultado da mentira e da violência. A única forma de vencer os poderosos era viver o ahimsa, que consistia em não cometer violência contra outros seres. Para combater as injustiças era necessário compreender precisamente o significado da libertação, do que se queria ser liberto.

Dizia que apesar de possuir um patriotismo universal, lutava por um esquema de libertação primeiro da Índia, desenvolvendo uma força interna. Acreditava no poder do pensamento, mas do que no da palavra, escrita ou falada, e apesar da possibilidade das incompreensões, as pessoas entenderiam sua mensagem através de seus resultados: simplicidade, serviço à humanidade, viver para não ferir os outros, vínculo absoluto entre ricos e pobres, capital e trabalho, príncipe e camponês, humanizar os processos de produção. Acreditava que ao criar uma consciência espiritual pura, o indivíduo sacrifica-se pela família, a família pela vila, a vila pelo distrito, o distrito pela província, a província pela nação, a nação por todos.

O satyagraha de Gandhi exigia a não violência absoluta, mas valorizava a vida honrosa e humilde que não suportava que milhares de pessoas perdessem suas vidas pelo satyagraha, mas que acreditava que, a longo prazo, haveria menor perda de vidas e um enobrecimento e enriquecimento moral pelo sacrifício de muitos. A retaliação contra a maldade tem a natureza de aumentá-la. A oposição mental e espiritual é contra as imoralidades, que cega a espada do tirano e decepciona sua expectativa de que se ofereceria resistência física.

Mesmo em meio às nossas possíveis fraquezas reconhecidas de caráter, deveria se manter a não violência como objetivo, fazendo progressos constantes em direção a ela, como o único método para alcançar a liberdade real, banindo toda mentira, que seria a mãe da violência. Já a não violência não é um mero princípio filosófico, é algo misterioso, e sua adesão é livre. Ninguém deveria ser obrigado a pegar em armas e nem pagar por se opor. O certo é que esses tipos de sistemas devem estar em seu último suspiro para precisar da imposição de sentenças bárbaras e cidadãos honoráveis e inocentes para sua sustentação.

Gandhi acreditava que quando a Índia se tornasse autossustentável, autoconfiante e à prova de tentações e exploração, ela deixaria de ser objeto de atração gananciosa por qualquer poder no Ocidente ou no Oriente e se sentiria segura sem ter que carregar o fardo de caros ornamentos. O método utilizado pela violência usava a mentira, a fraude, o engano, o segredo. Ao contrário, quanto mais honesto você é, mais provável que seja verdadeiro, e não existe derrota ou desespero no dicionário de um homem que baseia sua vida na verdade e na não violência. Se a Índia fosse não violenta na consciência de sua força, os ingleses perderiam seu papel de conquistadores desconfiados. A não violência é a maior e mais ativa força do mundo, dizia Gandhi, pois a não violência não era passiva, e o Ahimsa que significa amor no sentido paulino, inclui toda a criação, e não apenas o ser humano, e é maior que qualquer força brutal. Ela não possui nada, portanto, possui tudo. É a única força verdadeira da vida. Se é para buscar o Reino dos Céus por primeiro, esse reino é o ahimsa. Exige um sacrifício de si mesmo, um não cooperar com qualquer sistema que mata e oprima seres humanos.

Gandhi falou para muitos povos que era preciso coragem para viver a não violência, que só aqueles que tinham uma fé viva no Deus da verdade, ou seja, no Amor, que parecendo falhar, como no caso de Jesus Cristo, preservava sua dignidade intacta, provando que a fé é igual a qualquer sofrimento, mas o metal mais duro cede ao calor suficiente, e a não violência gera calor sem limites. Chegará o dia em que os povos se rebelarão contra os seus “heróis adorados”, sem forças diante da virtude pessoal e social da não violência, que deve ser sempre cultivada, para que dê frutos. Já no caso do abuso sexual das mulheres em períodos de guerra, segundo Gandhi, a não violência nunca deveria ser usada como um escudo para a covardia, preferindo seus adeptos morrerem lutando violentamente do que se tornarem testemunhas desamparadas de tais atrocidades. Um homem de fato não violento nunca viveria para contar a história dessas crueldades. Ele daria sua vida no local em resistência não violenta, sendo que permanecer como espectador passivo diante de crimes testemunhados é covardia.

Todos os homens são iguais e devem ser tratados de forma isonômica[9]: “Faça aos outros como gostaria que eles fizessem a você.” Precisamos lembrar que os maiores professores da humanidade eram asiáticos e não possuíam rosto branco. O odiador não odeia por causa do ódio, mas porque quer afastar de seu país os seres odiados. Alguns pregaram sobre não violência com os lábios enquanto abrigavam a violência do preconceito e da discriminação no peito. A hipocrisia e distorção estão passando nos dias de hoje sob o nome de religião, mas enquanto houver fome na terra, sem que haja defesa dos esfomeados, não há que se falar em verdadeira religião. O homem não deve se afogar no poço de regras e preceitos, mas mergulhar em seu vasto oceano e trazer pérolas.

Os socialistas e comunistas incitaram a violência para controlar o Estado, sob a mentira de que, no poder, poderão garantir a igualdade. Mas esta só pode ser conseguida através da não violência, e não quando todos estiverem ganhando o mesmo salário. Quanto mais honesto um negócio, mas bem-sucedido ele será. “Honestidade é a melhor política”. A honestidade é incompatível com o acúmulo de uma grande fortuna. “E outra vez vos digo que é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus”.


[1] Satyagraha foi um movimento baseado no princípio da não agressão ou forma não violenta de protesto, como um meio de revolução, criado por Mahatma Gandhi (cf. https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/satyagraha).

[2] Uiratan Barroso é bacharel em Ciências Sociais com habilitação em Antropologia Social; especialista em Psicologia Organizacional; especialista em Gestão e Conservação de Espaços Naturais; graduado em Karatê Do Shotokan e servidor público federal.

[3]Conferir em https://www.ebiografia.com/leon_tolstoi/.

[4]Conferir em https://www.ebiografia.com/mahatma_ghandi/.

[5] Conferir nas páginas 09-30 do livro “A arte da comunicação não violenta, origem, teoria e prática: escritos e correspondências entre Gandhi e Tolstói”.

[6] O Indian Opinion, fundado em 1903 por Mohandas Gandhi, MH Nazar e Madanjit Viyavaharik, era um importante jornal semanal na província de Natal, África do Sul (https://edukemy.com/free-resources-for-upsc/prelims-notes/first-phase-of-revolutionary-activities-1907-1917/gandhis-experience-in-south-africa/100759).

[7]Conferir nas páginas 46-47 do livro “A arte da comunicação não violenta, origem, teoria e prática: escritos e correspondências entre Gandhi e Tolstói”.

[8]Conferir nas páginas 50-207 do livro “A arte da comunicação não violenta, origem, teoria e prática: escritos e correspondências entre Gandhi e Tolstói”.

[9]Na época em que os escritos de Gandhi foram produzidos, o termo “homens” se referia a todos os seres humanos, homens e mulheres.

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