J. U. Barroso [1]
Conceitos e objetivos da Comunicação Não Violenta [2]
A Comunicação Não Violenta (CNV) foi idealizada pelo psicólogo Marshall Rosenberg, que faleceu em 2015, e passou a maior parte de sua vida buscando a paz mundial e a resolução de conflitos. Seus estudos e escritos foram baseados em grandes líderes pacifistas, como Mahatma Gandhi e Martin Luther King, que se inspiraram em Lion Tolstói [3]. Rosenberg ministrou treinamentos e programas de paz em muitas regiões assoladas por guerras e por conflitos tribais, desde a Ásia até a África, ensinando a CNV como uma linguagem da vida, um idioma da compaixão, para trazer mais compreensão e empatia aos relacionamentos humanos. O exercício da CNV inspira conexões sinceras entre as pessoas por meio da doação compassiva, sem o uso da violência e com uma escuta melhor do outro. Assim, se consegue extrair os verdadeiros sentimentos e necessidades, e aprendemos a perguntar: “Em que eu posso ajudar?”. Ao sermos ouvidos, passamos também a ouvir, e podemos atender com maior clareza sugestões e conselhos, porque já não somos mais vistos por trás dos adjetivos rotulantes e generalistas.
O que Rosenberg queria entender seria o há nos seres humanos que leva alguns a se comportarem de forma violenta e abusiva e que tipo de educação nos tornaria mais compassivos, diante de pessoas que se comportam de forma violenta ou exploradora. Ele acreditava que os seres humanos tinham por natureza a compassividade, mas com o passar do tempo acabavam se tornando violentos, incomodados, preocupados, confusos, decepcionados, justamente porque suas necessidades básicas não eram atendidas. Mas bastaria que estas fossem acolhidas para que as pessoas se tornassem mais calmas, serenas, despreocupadas, convictas, satisfeitas, contentes, tornando-se novos “missionários CNV”, ajudando outros a também atenderem suas necessidades, promovendo uma mudança de vida e tornando pessoas mais felizes e plenas. A comunicação não violenta ensina que nunca devemos usar a violência e a punição para resolver uma situação conflituosa em que o diálogo, com maneiras mais poderosas, pode conduzir e resolver, e caso as partes não consigam manifestar seus sentimentos e necessidades, um mediador de conflito pode emprestar a linguagem CNV e falar por elas, encaminhando a negociação para o conhecimento das necessidades não correspondidas de ambas.
E por esse motivo, durante décadas, Rosenberg criou técnicas variadas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais e responder uma pergunta essencial: o que nós e os outros necessitamos e não conseguimos obter? E o primeiro passo seria decidir entregar o coração e assumir a natureza primeira do ser humano: gostar de dar e receber com compaixão, praticando a “não violência”, fazendo essa mesma violência sumir aos poucos. Após, a mudança na comunicação e na linguagem fortalecem a entrega de coração e a capacidade de manter a humanidade, mesmo em condições adversas, criando uma conexão de coração para coração com o outro. Posteriormente, passamos a observar sem avaliar, que é a forma mais elevada de inteligência humana, segundo o filósofo indiano J. Krishnamurti. Evita-se os exageros de linguagem, e ao invés de dizer “você NUNCA mais saiu comigo”, dizemos “tenho vontade de voltar a sair com você novamente”.
Aos poucos, passamos a expressar com coragem nossas vulnerabilidades, tomando novamente as rédeas da própria vida, percebendo que a atitude dos outros não foi a geradora dos nossos sentimentos negativos. Após essa “observação” de quais “sentimentos” estão em jogo, podemos pedir que nos ajudem ou tomem atitudes que satisfaçam nossas necessidades mais básicas. O segundo passo do processo consiste em fazer o caminho inverso, ouvindo os outros, observando o que falam, sentem, necessitam e o que desejam pedir, sempre com empatia, que nos ajuda a ouvir sem julgar e na percepção do outro, para que nosso interlocutor perceba que está sendo escutado com compaixão. Enfim, isso cura e resolve grande parte do conflito.
Inspirado em Gandhi, Rosenberg convida a sermos a mudança que buscamos no mundo, e através da CNV somos levados ao aprimoramento contínuo da autocompaixão, voltando à consciência de que somos especiais, mesmo não sendo perfeitos. Assim, não há nenhum problema em expressarmos nossa raiva plenamente e com todo coração, dissociando esse sentimento de qualquer pessoa, entendendo que essa raiva apenas expressa o sentimento de uma necessidade não atendida: ao invés de dizer “estou com raiva porque ele me fez isso”, dizemos “estou com raiva porque preciso atender a tal necessidade”. Essa mudança de atitude e de linguagem nos impulsiona a com clareza seguir o caminho para ter atendidas as nossas necessidades.
Em suma, com a CNV aprendemos a ver um mundo diferente do que aquele que se vê nos meios de comunicação de massa (televisão, internet, redes sociais). Isso não é ser ingênuo, diz Rosenberg, já que no mundo há muito sofrimento causado por tantas formas de violência, mas aprendemos a acreditar que não precisa ser desse jeito, que no mais profundo o ser humano verdadeiramente se sente bem em fazer algo para o bem alheio. Passamos a acreditar nessa realidade, para que mais pessoas consigam se comunicar com essa linguagem da vida, e abandonem a linguagem da violência e da morte.
[1] Uiratan Barroso é bacharel em Ciências Sociais com habilitação em Antropologia Social; especialista em Psicologia Organizacional; especialista em Gestão e Conservação de Espaços Naturais; graduado em Karatê Do Shotokan e servidor público federal.
[2] Baseado em treinamento ministrado por Marshall Rosenberg e nos seus livros “Vivendo a Comunicação Não Violenta: como estabelecer conexões sinceras e resolver conflitos de forma pacífica e eficaz” e “Comunicação Não Violenta: técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais” (cf. em https://www.youtube.com/whatch?v=uxABJFS1_j8&t=1750s).
[3] Leon Tolstói foi um escritor russo, autor de “Guerra e Paz”, obra-prima que o tornou célebre. Profundo pensador social e moral é considerado um dos mais importantes autores da narrativa realista de todos os tempos e um dos grandes líderes pacifistas (cf. https://www.ebiografia.com/leon_tolstoi/).
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