Uiratan Barroso[2]
Introdução
“Quem foi Sêneca?”, é a primeira pergunta que surge. Lúcio Anneo Sêneca nasceu por volta de 4 a.C., em Córdoba, na Espanha, sendo educado em Roma e estudado retórica ligada à filosofia[3]. Além de filósofo, foi advogado e membro do senado romano. Em 41, sob a acusação de adultério, sofre desterro e vai viver por 10 anos com grande privação material, tempo em que escreveu seus principais tratados filosóficos. Quando Nero foi nomeado imperador, tornou-se seu principal conselheiro, mas não logrou muito êxito nas tentativas de orientar o monarca para uma política de justiça e humanidade, acabando por deixar a vida pública em 62. Depois de inúmeros textos escritos até o ano de 65, e após ser acusado de participar de uma conspiração para tirar Nero do poder, recebeu a ordem do imperador para tirar a sua própria vida, o que fez com o mesmo ânimo sereno com que pregava em sua filosofia.
É certo que os filósofos clássicos e o conhecimento advindo deles não possuem “data de validade”, e é por isso que estamos aqui para falar com você, não da morte, mas da vida de Sêneca, e de como os seus escritos, ainda hoje, podem ajudar o ser humano de hoje tão atormentado a obter, como o título propõe, uma alma mais tranquila. Sêneca provou uma vida material e social elevadas, assim como uma vida simples, com muita privação até do básico para sobreviver, e essa experiência teve profunda influência sobre seu pensamento filosófico. Aprendeu a viver na solidão e no silêncio, ambiente em que escreveu seus tratados mais importantes, como o “Da vida retirada”[4], o “Da felicidade”[5] e o da “Tranquilidade da alma[6], sendo que aquele primeiro conheceremos no nosso resumo formativo de hoje.
Sêneca, utilizou a filosofia como uma arte da ação humana, um remédio para os males da alma e um ensinamento que conduz os homens para o exercício da virtude. A ética foi o centro de sua reflexão filosófica, que reproduziu em grande parte as ideias dos estoicos gregos[7], e suas palavras se prestam, ao que parece, ao convencimento, preocupado com a conversão do outro[8].
Da tranquilidade da alma[9]
Para Sêneca, os vícios nos acompanham constantemente e se retirar para estudar e refletir sobre a vida poderia ser proveitoso, nos tornando melhores do que somos. Agora, esse “retirar-se” precisaria ser para perto de homens qualificados, escolhendo um exemplo para orientar nossa vida, e assim conduzir a vida segundo um único princípio, em lugar de fragmentá-la com projetos diversificados.
Sêneca parece se referir a uma tendência desde sempre de uma fragmentação do ser humano e de sua vida, sempre direcionada a várias tendências, mudanças e novidades, o que acabaria por dificultar a chegada e a estadia em um lugar próprio para reflexão. A partir dos anos 2000, com o advento dos smartphones e das redes sociais, a revolução da tecnologia da comunicação exponenciou essa tendência, partindo tudo o que era, até então, sólido e duradouro. É o que Bauman vem falar quando escreve o seu “Modernidade Líquida”[10], querendo dizer que as relações humanas se esvaem pelas mãos como água, na mesma medida e velocidade das infinitas teias de relações humanas, infindavelmente vazias e efêmeras.
Dependemos inteiramente dos julgamentos alheios. Nos tornamos sábios quando nos dedicamos ao não realizável, empenhando-se para não conseguir nenhum resultado. Portanto, entendendo esse novo paradigma das relações humanas, Sêneca ensina aos que possuem plena capacidade física, quem evitem os problemas originados pela vida pública, que quer tudo, menos resolver os problemas sociais. O que o ser humano inteligente deve buscar é a segurança interna, dedicando-se a artes nobres, vivendo de ócio criativo e cultivando virtudes que podem ser praticadas no mais absoluto retiro e solidão. A natureza gerou-nos tanto para a contemplação quanto para a ação, dando-nos um espírito curioso e consciente de sua perícia e beleza, e criando-nos para a contemplação desses grandes espetáculos. Para Sêneca, é absurdo alguém não se permitir viver essa vida retirada, buscando no silêncio a contemplação da natureza, produzindo conteúdos para ajudar seres humanos a viverem uma vida mais perfeita.
Sêneca finaliza: “Já que não podemos encontrar a república de nossos sonhos, então nos invade a necessidade de descanso, porque não encontramos nenhum lugar que possa substituir nossa vida retirada. Se alguém disser que navegar é ótimo, mas, em seguida, advertir que não se deve fazê-lo por águas onde são frequentes os naufrágios e nas quais as tempestades desorientam os pilotos, concluo que esse indivíduo me aconselha a não enfrentar o mar, por mais que louve a navegação. Enfim, Sêneca não condena a vida socialmente ativa, mas sugere, mesmo que não se possa ausentar completamente das relações sociais, que é importante criar o hábito de se retirar sozinho (vida retirada), utilizando o ócio não para atividades que levem nos levem aos vícios e a atividades vazias e sem sentido. Ao contrário, o ócio deve ser criativo, permitindo a escuta do silêncio e do que fala no mais íntimo de nós mesmo, nos levando a uma reflexão transformadora. É como a minha querida mãezinha dizia: “Antes só do que mal acompanhado”.
[1] Resumo comentado retirado do livro “Da Tranquilidade da Alma: precedido de Da vida Retirada e seguido de Da Felicidade”, de Sêneca (2009, Ed. L&PM Editores).
[2] Uiratan Barroso é bacharel em Ciências Sociais com habilitação em Antropologia Social; especialista em Psicologia Organizacional; especialista em Gestão e Conservação de Espaços Naturais; graduado em Karatê Do Shotokan e servidor público federal.
[3] A retórica é a arte de falar bem, de se comunicar de forma clara e conseguir transmitir ideias com convicção. (cf. em https://www.significados.com.br/retorica/), e Sêneca usava essa arte para discutir e analisar questões filosóficas.
[4] A vida retirada para Sêneca é o afastamento de atividades públicas e político-administrativas e o recolhimento como imprescindíveis para que o homem possa cumprir a sua missão de observar e julgar tudo pelo prisma do bem e da honestidade.
[5] A vida feliz para Sêneca é o convite para deixar de lado os abusos e os prazeres e evitar as doenças do corpo e da mente, não valorizando as riquezas, vivendo através da razão, da retidão, da harmonia com o universo.
[7] A vida tranquilo para Sêneca se resumia na “tranquilidade da alma”, ou seja, refletir sobre a dificuldade que é para o homem comum e também para o sábio manter a sua serenidade perante o espetáculo da injustiça e da baixeza.
[8] O foco da corrente estóica era o total apego e fidelidade pelo conhecimento, onde sentimentos, emoções e paixões deveriam ser descartados para que o homem pudesse encontrar a verdadeira e duradoura felicidade (cf. em https://querobolsa.com.br/enen/filosofia/estoicismo).
[8] Essa primeira parte de nosso resumo comentado foi retirada das palavras iniciais de Lúcia Sá Rabello, doutora em Letras (2009, pág. 07-15).
[10] Conferir em Sêneca (2009, L&PM Editores).