Uiratan Barroso[1]
O almirante de quatro estrelas William H. McRaven serviu a Marinha dos Estados Unidos por 37 anos, exercendo o comando dos SEALs[2] em vários níveis, aposentando-se como comandante de todas as Forças de Operações Especiais. McRaven foi autor do livro best-seller “Arrume sua cama”, publicado originalmente em 2017, mas o sucesso dessa literatura iniciou no discurso que seu autor fez para milhares de jovens que colavam grau universitário[3], no ano de 2014. No dia do discurso, McRaven falou aos formandos sobre dez lições que aprendeu nos exaustivos treinamentos das forças especiais da Marinha dos Estados Unidos. Ele percebeu que eram ensinos com apelo universal, e por isso, decidiu escrever um livro para repassar aquelas simples lições para mais gente, pois se ajudaram os SEALs superarem dificuldades que a maioria dos seres humanos não superaria, poderiam ajudar qualquer pessoa a enfrentar seus desafios mais complexos. Então, sem demora, vamos conhecer essas dez pérolas formativas, baseados no livro de McRaven[4] e, quem sabe, ao final desse pequeno texto, sentiremos a necessidade e a inspiração para construir uma vida cada vez melhor, a começar pela leitura do livro completo.
Primeira lição: Comece o dia com uma tarefa feita
Se quisermos mudar o mundo, precisamos começar arrumando nossa cama. Essa sempre é a primeira tarefa exercida cedo da manhã pelos militares do SEAL, inclusive no alojamento dos seus oficiais, em estilo espartano. McRaven, mesmo depois de oficial, dividia com mais três colegas oficiais quartos simples, sem nenhum luxo. Foi isso que aprendeu durante sua formação e treinamento quando jovem, e após a arrumação das camas, entrava o instrutor, sempre inflexível e impassível, para inspecionar cada palmo das camas arrumadas e dos uniformes, naquele momento, já vestidos. Tudo precisa estar impecável e, ao final, durante todo o treinamento, o instrutor apenas acenava levemente com a cabeça, pois arrumar a cama corretamente não era motivo de elogio, mas o que se esperava de todos, como sinal de disciplina. A vida é dura, como quem participa de uma guerra, e pouco se pode fazer para influenciar o resultado do dia, afastados da família e de suas casas. Por isso, diz McRaven, devemos sempre procurar algo que possa nos dar consolo, que possa nos motivar a iniciar o dia, que possa nos dar orgulho num mundo quase sempre horrível. E arrumar a cama é, talvez, a tarefa mais cotidiana que precisa ser feita com alegria, para nos dar a sensação de que a nossa vida inicia organizada, nos estimulando a dar o melhor e finalizando o dia com satisfação. Então, se você quer mudar a sua vida, e talvez o mundo, comece arrumando sua cama.
Segunda lição: Você não vai conseguir sozinho
Se quisermos mudar o mundo, precisamos aprender cedo a valorizar o trabalho em equipe e a ter necessidade de confiar em mais alguém para nos ajudar a vencer as tarefas difíceis. No momento que alguém da equipe estiver doente ou com alguma limitação, os outros devem assumir a responsabilidade, remando com força máxima. Ninguém é capaz de aguentar os combates da vida sozinho, mas sempre nos enganamos, achando que nossa capacidade atlética ou intelectual é suficiente, até que a vida nos surpreende com uma doença grave, uma crise financeira ou uma desilusão amorosa, pois ninguém está livre dos momentos trágicos da vida. Só uma boa equipe pode nos ajudar a cumprir o nosso destino. Ninguém consegue remar sozinho, por isso devemos encontrar alguém para compartilhar nossa vida, abrindo nosso coração para fazer bons amigos, nunca esquecendo que nosso sucesso depende de outros.
Terceira lição: Tudo o que importa é o tamanho do coração
Se quisermos mudar o mundo, precisamos avaliar as pessoas pelo tamanho do coração. McRaven conta que os SEALs nadavam 3 quilômetros matinalmente no mar. Em um determinado dia, quando as ondas passavam de 3 metros, um jovem marinheiro, de 1,60 metro de altura, foi desafiado pelo instrutor, que não acreditava que ele sairia ileso da jornada, mas balbuciou no ouvido do jovem: “Prove que estou errado!”. Conclusão: aquele pequeno marinheiro chegou entre os primeiros. Isso quer dizer que sempre precisaremos provar para nós mesmos que tamanho não importa, que a cor da pele não importa, que o dinheiro não faz ninguém melhor, que determinação e coragem é o que conta. Ao final, McRaven lembra uma experiência, quando conheceu um tenente bastante magro, imaginando não ser “grande coisa”. Ao ser apresentado, descobriu que o tal “magrela”, na guerra do Vietnã, ultrapassou a linha inimiga para resgatar dois pilotos que tinham sido abatidos. Aquele homem calmo, reservado e humilde era um dos mais valentes soldados na longa história dos SEALs e, pasmem, ele quase foi excluído do treinamento por ser pequeno, magro e fraco demais. Em resumo, caros leitores, não são as dimensões das nadadeiras que contam, mas o tamanho do coração.
Quarta lição: A vida não é justa, siga em frente!
Se quisermos mudar o mundo, precisamos deixar de nos sentir injustiçados e seguir em frente. Não havia nada de mais desconfortável no treinamento dos SEALs que receber a punição de saltar na área de arrebentação do mar, sair da água ensopado e rolar no chão até se transformar num “empanado de areia”. Isso, de fato, testava a paciência e a determinação, conta McRaven, que ao passar certa vez por essa punição, foi chamado por um tenente instrutor considerado o homem-rã por excelência, que lhe disse: Você é um empanado de areia porque a vida não é justa, e quanto mais cedo aprender isso, melhor ser humano será. Tempos depois, esse mesmo tenente sofreu um acidente e ficou paralítico da cintura para baixo, com movimento limitados dos braços. Pelos 35 anos seguintes, ele viveu numa cadeira de rodas, e durante todos esses anos, McRaven diz que nunca ouviu dele uma queixa sobre seu infortúnio, tornando-se um talentoso pintor, um pai dedicado e o fundador de um evento de Triathlon em Colorado/EUA. Isso quer dizer que ao invés de acreditarmos que certos acontecimentos externos negativos é a prova de que o destino está contra nós, precisamos aprender que a vida é determinada pela maneira que lidamos com as injustiças. Por isso, não devemos nos queixar, nem culpar nada ou ninguém por nossos problemas, mas levantar a cabeça, olhar para o futuro, agir no presente e seguir em frente!
Quinta lição: O fracasso pode nos tornar mais forte
Se quisermos mudar o mundo, não devemos temer o Circo. Nos desafiadores treinamentos de natação no mar agitado eram formadas duplas, e se um fracassasse, ambos sofreriam as consequências, como forma de reforçar a importância dos trabalhos em equipe. Em um determinado dia, conta McRaven, a sua dupla chegou em último lugar, sendo punidos com o Circo, onde ao final do dia exaustivo realizavam duas horas de exercícios de ginástica, combinados com a hostilidade contínua dos veteranos do SEAL. No dia seguinte estavam “moídos”, e acabavam chegando por último novamente, repetindo um Circo após outro, até a completa desistência dos alunos. Mas McRaven notou que todo fracasso tem um preço, e à medida que os Circos se repetiam, suas performances na natação melhoravam, deixando-os mais fortes, rápidos e confiantes na água, até que um dia chegaram em primeiro lugar. O oficial instrutor chegou para eles e disse: “Vocês envergonharam seus colegas novamente, a segunda dupla ainda nem se aproximou da margem da praia”. O Circo começou como castigo por um fracasso, mas se tornou trampolim para a vitória. Resumindo, vamos enfrentar muitos Circos na vida, mas o que temos de fazer é pagar o preço pelos fracassos que virão, e se não desistirmos e continuarmos a treinar e dar o nosso melhor, o fracasso nos tornará mais fortes.
Sexta lição: Você precisa ousar mais
Se quisermos mudar o mundo, devemos nos atirar de cabeça ao obstáculo. Quando fracassamos em alguns projetos pessoais ou profissionais, a vida nos chama em um canto e diz que a pista de obstáculos nos derrotará sempre, a menos que corramos certos riscos, vencendo a ansiedade e tendo mais confiança na própria capacidade de realizar a tarefa. McRaven percebeu durante décadas de trabalho à frente das forças especiais dos estadunidenses que correr riscos era comum em operações onde existem seres humanos especiais, não por serem melhores que a maioria, mas por manterem a disciplina e a perseverança diante dos desafios e fracassos da vida. “Quem ousa vence”, era o lema dos SEALs. A vida é uma luta, diz McRaven, e a possibilidade de fracasso está sempre presente, mas os que vivem com medo do fracasso, do sofrimento ou da vergonha nunca conquistarão seu pleno potencial. Sem forçar os limites, sem vez ou outra se lançar sobre um obstáculo de cabeça, sem ousar, nunca saberemos o que seria verdadeiramente possível em nossas vidas.
Sétima lição: Enfrente os tiranos
Se quisermos mudar o mundo, não fuja dos tubarões. Em certa ocasião, percorreram 6.5 quilômetros de natação noturna. O mar estava agitado e frio, e em uma hora, estavam 2 quilômetros da praia e o mar estava repleto de tubarões-brancos, mas McRaven disse que estava tão decidido a ser um SEAL, e considerava que seus objetivos eram tão honrados e nobres, que seria capaz de lutar com qualquer fera. Sem a devida coragem, sucumbimos diante das tentações, déspotas e tiranos acabam nos governando e a sociedade não floresce para uma vida abundante. O ditador Saddam Hussein, conhecido como o Açougueiro de Bagdá, matou milhares e milhares de pessoas, sendo preso por soldados americanos e condenado à morte pelos próprios iraquianos. McRaven, ao lembrar desse evento, diz que todos os tiranos são sempre iguais, prosperam onde há medo e intimidação, e extraem sua força dos tímidos e fracos. São como tubarões que sentem medo na água, rondando suas vítimas para constatarem se são fracas, e não devemos temê-los. Na vida, para conquistar objetivos, para completar a natação noturna, teremos que ser homens e mulheres de grande coragem. Devemos cavar bem fundo, porque essa coragem está abundantemente dentro de cada um de nós.
Oitava lição: Mostre-se à altura da ocasião
Se quisermos mudar o mundo, devemos dar o melhor nos momentos mais sombrios. McRaven lembra das palavras do suboficial, certa ocasião em que um treinamento noturno no mar agitado tinha grande potencial para causar ferimentos e morte: “Esta noite, os senhores terão que dar o melhor de si, superar medos, dúvidas e cansaço. Não importa a escuridão, devem completar a missão. Isso é o que os separa de qualquer outra pessoa”. Mesmo sabendo dos grandes desafios, os alunos SEALs que se formavam não se omitiam diante do que lhes era proposto, e por fim, completavam sempre as provas. Em algum momento, todos nós enfrentaremos uma fase sombria na vida. Se não a morte de um ser amado, alguma coisa que aniquile nossa energia e nos faça duvidar do futuro. Nesse momento sombrio, devemos mergulhar fundo dentro de nós mesmos e dar o nosso melhor.
Nona lição: Dê esperança às pessoas
Se quisermos mudar o mundo, devemos começar a cantar quando estivermos enfiados na lama até o pescoço. A chamada Semana Infernal nos pântanos de Tijuana[5] era o acontecimento mais importante da primeira fase do treinamento do SEAL, sendo seis dias sem dormir, longas corridas, exercícios de natação em mar aberto, pista de obstáculos, subidas em corda, infindáveis sessões de ginástica e constantes remadas no pequeno bote inflável, tudo sob a implacável hostilidade dos instrutores, conta McRaven. As atividades duravam horas, e quando o sol se punha, a temperatura declinava, a velocidade do vento aumentava e as atividades pareciam mais difícil, tudo com um único objetivo: eliminar os fracos. A moral caía rapidamente. Numa dessas ocasiões, um dos alunos encaminhou-se ao instrutor para desistir. De repente, acima do uivo do vento, ouviu-se uma voz cansada, cantando suficientemente alta uma letra bem conhecida de todos. O companheiro que ia desistir deu meia-volta e retornou ao grupo, entrelaçando seu braço no de McRaven e passou a cantar também. A força de uma única pessoa pode unir e dar força a um grupo, gerando a esperança de que, em qualquer situação complexa, podemos criar empatia com a dor e vencê-la, descobrindo que dentro de nós temos a capacidade de não apenas sobreviver, mas também inspirar outras pessoas. A esperança é a força mais poderosa do universo, capaz de ajudar os oprimidos a se levantarem e aliviar a dor das perdas insuportáveis. Quando chegar o dia em que estivermos enfiados na lama até o pescoço, é o momento de cantar o mais alto que pudermos, de sorrir francamente, de animar os que nos cercam e lhes dar esperança de que o amanhã será um dia melhor.
Décima lição: Nunca, jamais, devemos desistir!
Se quisermos mudar o mundo, nunca, jamais devemos tocar o sino. Um treinamento do SEAL, considerada a força especial mais capaz e competente do mundo, dura em torno de seis meses. Os testes são sobre-humanos, e a grande maioria dos alunos não consegue chegar até o final. No primeiro dia de aula, os oficiais instrutores informam sarcasticamente que haverá muito sofrimento, mas que os alunos não precisam sofrer, bastando tocar um determinado sino, que fica a mostra de todos. Por fim, um outro instrutor finaliza: “Mas vou dizer-lhes uma coisa, se desistirem, vão se arrepender pelo resto da vida. Desistir não torna nada mais fácil”. Então, diz McRaven, que essa foi a lição mais importante que aprendeu no SEAL, a de nunca desistir, passando a se inspirar em pessoas que se recusaram a ter pena de si mesmas. A vida é cheia de fases difíceis, mas sempre existe alguém em uma situação pior do que a nossa, e se recusamos a desistir dos nossos sonhos, nos mantendo firmes e fortes diante das adversidades, a vida será o que fizermos dela, e podemos fazê-la grandiosa se “Nunca, jamais, tocarmos o sino!”.
Conclusão
Se colocarmos em prática as lições acima, elas poderão nos livrar do fracasso? Posso dizer com toda convicção que sim, pois o que foi ensinado pelo general das forças especiais norte-americanas William McRaven são literalmente bons conselhos. Não precisa ser um estudioso da história humana, nem tampouco dos comportamentos sociais que acompanham essa história por milênios. Se quisermos, podemos aprender essas dez lições, colocando-as em prática com muita verdade e coração. Com certeza, sairemos ao final seres humanos melhores. Mas como falei, essa é a minha opinião convicta e, desde já, afirmo que respeito as opiniões dos caros leitores. Contudo, faço-lhes um convite para ler o livro completo de McRaven, e podem ter certeza que não ganharei nada com isso, apenas mais seres humanos com um conteúdo muito bom a mais. Quem sabe, a começar por arrumar nossa cama, com perseverança e disciplina, poderemos progredir para tarefas mais complexas e determinantes, na direção da consecução dos nossos projetos pessoais e profissionais mais importantes. Uma coisa é certa: se não somos perseverantes e disciplinados, para arrumar com perfeição nossa cama de manhã cedo assim que levantamos, poucas coisas, efetiva e eficazmente, faremos em nossa vida. E aí, topa ler esse livro?

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[1] Uiratan Barroso é bacharel em Ciências Sociais com habilitação em Antropologia Social; especialista em Psicologia Organizacional; especialista em Gestão e Conservação de Espaços Naturais; graduado em Karatê Do Shotokan e servidor público federal.
[2] Os Navy SEALs constituem uma força especial da Marinha estadunidense, e sua sigla representa os ambientes em que operam (SEa, Air, Land – no mar, no ar e em terra). São treinados para agir em situações para as quais os oficiais regulares não foram capacitados.
[3] Assista o discurso de William McRaven em https://www.youtube.com/watch?v=quco5CRZH4s.
[4] O resumo formativo apresentado aqui, com alguns breves comentários, foi retirado do livro “Arrume a sua cama: pequenas atitudes que podem mudar a sua vida… e talvez o mundo”, de William H. McRaves, editora Academia, 2019.
[5] Os pântanos de Tijuana estão localizados entre o sul de San Diego e o México, sendo uma região baixa onde a drenagem do San Diego criava uma grande faixa de terreno pantanoso e profundo que tinha consistência de barro úmido.